Como está sendo minha vida na Itália durante a quarentena, com distopia e memes

Quando a história do Coronavírus começou, eu, como muita gente, não dei tanta atenção. Achei que era alarmismo. Eu estava passando meu carnaval na Batalha de Laranjas de Ivrea quando comecei a receber muitas mensagens de amigos preocupados me falando para voltar para Bologna que a universidade ia fechar a partir da segunda, 17 de fevereiro. Eu só ia passar o primeiro dia no Carnaval mesmo, mas depois vi que os dias seguintes tinham sido cancelados, assim como o Carnaval de Veneza. Quando eu voltei para Bologna, o supermercado perto da minha casa ainda tava normal, mas vi fotos de hipermercados que foram quase saqueados, e os supermercados e farmácias estavam colocando placas do lado de fora para avisar que não tinha mais álcool em gel nem máscaras.

As duas semanas seguintes foram estranhas. Um pouco de gente a menos na rua, mas nem tanta. Muitos dos estudantes voltaram para suas casas, em outras partes da Itália, apesar do medo de já terem o visto e contaminarem alguém. Eu continuei indo para a biblioteca estudar, para não ficar o dia todo em casa, mas ela estava vazia. Na segunda semana, já começaram as aulas online da universidade. No final da semana, o governo de Bologna anunciou que duas semanas de fechamento foram pesadas para teatros, cinemas e museus, e que todo mundo ia ganhar um Card Cultura, o cartão de descontos em atividades culturais. Parecia tudo tranquilo, que tudo ia reabrir.

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O bom da aula era online era fazer um café decente

Muitos lugares reabriram, mas nem por uma semana. Depois as regras foram ficando mais severas. Todos os museus, cinemas e teatros da Itália inteira fechados. Todos os eventos cancelados. Bares e restaurantes tinham que fechar às 18 horas, e só podiam ter consumidores se eles pudessem ficar a mais de um metro um dos outros. Todas as lojas começaram a ter cartazes dizendo que só alguns consumidores podiam entrar ao mesmo tempo, e para manter distância do balcão.

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“Peça daqui”
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“Não mais de duas pessoas por vez”

A doença mudou os hábitos dos italianos. Todo mundo falando para espirrar e tossir no cotovelo, para não cumprimentar com beijos nem apertos de mão. Mas o que mais me impressionou foi que os italianos aprenderam até a fazer fila. Quando os ingleses que moram por aqui voltarem, vão ficar impressionados.

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Depois, vazou a notícia de que eles iam fechar grande parte do país. A região da Lombardia, onde fica Milão, e várias províncias de várias regiões seriam a nova Zona Vermelha. Ninguém poderia entrar nem sair sem autorização. O povo entrou em pânico quando a notícia saiu, e muita gente do sul que trabalha ou estuda no norte pegou o último trem do domingo para voltar para casa. Só na Puglia, no salto da bota da Itália, chegaram nove mil pessoas nos trens de segunda de manhã. Eu entendo quem não queria ficar longe da família em uma hora dessas, mas com isso eles basicamente garantiram que a doença se espalhasse pelo país todo.

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Tudo que você vê é Zona Vermelha

Com tudo isso, ainda tinha gente indo para bares e parques com os amigos. O governo italiano já estava divulgando a #iorestoacasa (eu fico em casa), mas acharam que depois disso não dava mais. Os bares e restaurantes fecharam de vez. A maioria das cidades fechou os parques. A regra mais recente, que entrou em vigor na quinta dia 12, é que fecharam os bares, restaurantes e sorveterias, mas ainda permitindo a opção de delivery, e que você precisa de uma autocertificação para sair à rua. Sair de casa é só para ir para farmácias, supermercados, para o trabalho, e para ir ao médico. Sair sem motivo dá multa de 200 euros. Os jornais tão publicando fotos das praças famosas, geralmente cheia de turistas, agora completamente vazias.

É distópico não poder sair de casa quando a gente quer, e tem muita gente reclamando. Também tem muita gente dando testemunhos para mostrar por que é necessário. Essa enfermeira, por exemplo, viralizou ao mostrar os hematomas na cara causados pela máscara.

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Sono i un'infermiera e in questo momento mi trovo ad affrontare questa emergenza sanitaria. Ho paura anche io, ma non di andare a fare la spesa, ho paura di andare a lavoro. Ho paura perché la mascherina potrebbe non aderire bene al viso, o potrei essermi toccata accidentalmente con i guanti sporchi, o magari le lenti non mi coprono nel tutto gli occhi e qualcosa potrebbe essere passato. Sono stanca fisicamente perché i dispositivi di protezione fanno male, il camice fa sudare e una volta vestita non posso più andare in bagno o bere per sei ore. Sono stanca psicologicamente, e come me lo sono tutti i miei colleghi che da settimane si trovano nella mia stessa condizione, ma questo non ci impedirà di svolgere il nostro lavoro come abbiamo sempre fatto. Continuerò a curare e prendermi cura dei miei pazienti, perché sono fiera e innamorata del mio lavoro. Quello che chiedo a chiunque stia leggendo questo post è di non vanificare lo sforzo che stiamo facendo, di essere altruisti, di stare in casa e così proteggere chi è più fragile. Noi giovani non siamo immuni al coronavirus, anche noi ci possiamo ammalare, o peggio ancora possiamo far ammalare. Non mi posso permettere il lusso di tornarmene a casa mia in quarantena, devo andare a lavoro e fare la mia parte. Voi fate la vostra, ve lo chiedo per favore.

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No isolamento, tem gente respondendo cantando das varandas.  Agora vai ser todo dia às 18.

E também continuam circulando memes e piadas. Dá para ver, elas apareceram no post todo, mas já tem páginas no instagram só com memes do Coronavirus. É necessário nessa hora não perder o senso de humor.

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Então a gente continua assim, depois posto mais notícias sobre como tá a quarentena.

2 comentários

  1. Inez Lemos

    Acredito que nesse momento as pessoas devam refletir sobre a importância de cultivar vida interior: sabedoria para explorar a vida de fora para dentro, com boas leituras, filmes, conversas. Sem isso não suportaremos o isolamento.

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