Volta ao Mundo em Livros: Brasil – Um Defeito de Cor

Eu ouvi falar tanto de Um Defeito de Cor, da Ana Maria Gonçalves nos últimos anos que não sei porque demorei tanto tempo para lê-lo. Mas quando o Brasil saiu no projeto, achei que ia ser a oportunidade perfeita. Em parte porque eu já queria lê-lo, em parte porque tanta gente tinha falado dele como um livro que te ensina muito sobre o Brasil, em parte porque me inspirei na Camila Navarro do Viaggiando, que lê uma diversidade enorme de autores brasileiros. Aliás, esse é meu nono livro do Desafio Viaggiando, na categoria de livros que retratam a escravidão.

O romance começa na África, no reino de Daomé, e já começa com uma cena de violência, quando a família da narradora, Kehinde, é atacada. Ela tem seis anos, e junto com sua irmã gêmea, Taiwo, e a avó, ela sobrevive e se muda para a cidade de Uidá, na costa. Desde o início, a gente já ouve falar muito de alguns aspectos da cultura que vão aparecer muito no livro, como a crença de que ibejis, gêmeos, trazem sorte, e a crença de que a família dela é marcado por abikus, crianças destinadas a morrerem cedo, que devem ser protegidas com uma série de rituais.

Ela e a irmã são capturadas e levadas para um navio, e a avó, sem conseguir libertá-las, implora para ser levada junto com elas. Com doenças se espalhando pelo navio e falta de comida e sol, a Kehinde é a única que chega viva ao destino, e só lá ela descobre que chegou ao Brasil, e não a Mecca, como as muçulmanas do navio esperavam. A Kehinde é vendida como escrava para um senhor de terras para fazer companhia para a filha dele, a sinhazinha. A Kehinde pensa que a menina parece uma das bonecas de porcelana com quem ela brinca, mas que é ela mesma, a Kehinde, que foi comprada para ser mais uma das bonecas dela. Na fazenda, as pessoas a perguntam pelo nome com o qual ela foi batizada, mas ela se esquivou da cerimônia quando chegou no Brasil, e usa o nome de outra mulher do navio, Luísa. Mesmo ainda tão criança, esse já é um ato de resistência.

Ela passa anos na fazenda, e desenvolve uma amizade com a sinhazinha e com outros escravizados, ao mesmo tempo em que é exposta à violência do sinhô e da sinhá. E essa precisa de avisos, porque tem muitas cenas de violência gráfica. A Ana Maria Gonçalves não romantiza a vida na “Casa Grande” e não doura a pílula, e eu acho que é exatamente o que a gente precisa em uma discussão honesta sobre a escravidão, mas tem a necessidade de avisar que é gatilho. Ela também fala muito das formas de resistência, desde os quilombos até as resistências mais cotidianas, de colocar ervas na comida dos patrões.

Não quero contar muito do enredo depois disso, mas só falar que as experiências da Kehinde a levam a passar muito tempo em Salvador, o que foi uma das minhas partes preferidas do livro. As descrições delas das diferentes comunidades de escravizados, diferentes religiões, costumes, hábitos, realmente me fizeram pensar que é uma parte da nossa história que eu não conhecia muito. Ela também fala muito da situação dos libertos, que é extremamente precária, já que eles são vistos como estrangeiros e não tem direitos como o de possuir propriedades ou de se movimentar livremente. Muitos inclusive são “repatriados” à força. Nessa parte, ela também fala muito da Revolta dos Malês, e fiquei pensando como ela era descrita nos livros de história, como três características para decorar para a prova, e a descrição vívida do livro, em que ela afeta os destinos de personagens com os quais nos importamos.

Depois ela também perambula pelo Maranhão, pelo Rio de Janeiro, São Paulo e acaba retornando à África por um período, vivendo em Uidá e depois em Lagos, na Nigéria. Apesar de ter nascido na África, ela é incluída na comunidade de Brasileiros do Reino de Daomé (atual Benin), que se torna influente. E essa descrição sobre as festas brasileiras lá também foram uma das partes mais incríveis do livro.

A Kehinde é uma personagem fantástica, muito inteligente e criativa, e sempre disposta a ajudar os outros. Além disso, gostei de como ela é sempre descrita pelos outros personagens como boa contadora de histórias e boa escritora, o que eu fiquei pensando que também reflete várias culturas, a dos contadores de histórias africanos e a dos romances epistolares que eram populares na Europa nessa época.

Também é importante falar que a Kehinde é baseada na figura da Luísa Mahin, a mãe do poeta e abolicionista Luís da Gama. Ela também encontra várias personagens históricas no romance, como Agontime, a rainha de Daomé vendida para a escravidão, e o romancista Joaquim Manuel de Macedo. Ela também vive a maior parte do século XIX, com a independência do Brasil e grande parte do Império. Por isso, definitivamente dei razão a todo mundo que me disse que é a história do nosso país que a gente não aprende na escola. Fiquei muito feliz com a escola, e embora eu não esteja nem na metade dos livros que quero ler para o projeto, já sei que vai ser um dos meus preferidos no final.

 

2 comentários

Deixe uma resposta para Marcelo Rondas Cancelar resposta