Filmes e livros para se preparar antes de visitar um campo de concentração

Em qualquer viagem, eu acho que quanto mais você sabe sobre o destino, mais aproveita. Um lugar que para os outros não se destaca se enche de significado para você, e você se pega tirando fotos de placas dos nomes das ruas e estátuas em parques porque uma cena interessante de um livro aconteceu naquele lugar ou com aquela pessoa.

Mas um campo de concentração é algo que requer uma preparação e um estado de espírito especiais. É um lugar que você visita esperando que ele acabe com o seu dia. Uma antiga guia de Dachau postou um relato contando como ela sentia que havia falhado no seu trabalho quando as pessoas ainda tinham condições de beber uma cerveja e ter uma conversa leve após a visita.

Logo depois da Segunda Guerra, a gente conhece vários relatos de sobreviventes que desistiram de contar sobre as próprias experiências porque ninguém acreditava no que contavam. Por isso muitos deles voltaram aos campos e os transformaram em museus: para garantir que as pessoas não iam duvidar nem se esquecer. Porque não aprende com a própria história, está condenado a repeti-la, como nos lembra a citação de George Santayana nas paredes de Auschwitz.

Então aqui estão algumas sugestões de livros, música e filmes para se preparar para visitar um campo de concentração.

 

É Isto um Homem? – Primo Levi

Primo Levi era um judeu e um químico italiano quando se juntou à Resistência. Ele foi enviado a Auschwitz, e publicou seu livro em 1947. Ele começa por lembrar a condição de subhumano que os nazistas atribuíam aos judeus, e perguntar ao leitor se é isso um homem, que não conhece paz e luta por um pedaço de pão. Ele conta as suas experiências, que depois retoma em alguns contos, em A Trégua, o livro que escreveu sobre seu longo percurso para conseguir voltar para casa na Europa do pós guerra, e o livro de ensaios Os Afogados e Os Sobreviventes.

 

 

This way for the gas, ladies and gentlemen – Tadeusz Borowski

Coleção de histórias baseadas nas experiências do autor em Dachau e Auschwitz. Ele descreve um mundo brutal onde tudo que importa é sobreviver e onde desaparece a diferença entre o normal e o absurdo.

 

Poemas de Paul Celan

O filósofo Adorno disse que não se podia mais escrever poesia depois de Auschwitz. Depois ele admitiu seu erro quando leu a poesia de Paul Celan. Nascido Paul Antschel, após a guerra ele se tornou um dos maiores poetas de língua alemã. Fuga da Morte, seu poema mais famoso, tornou-se um símbolo na Alemanha pós-guerra.

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Grafite da Anne Frank em Dead Chicken Alley, Berlim

O diário de Anne Frank

A mais famosa diarista do Holocausto, Anne tinha apenas 13 anos quando começou a escrever. Seu livro conta as dificuldades de viver escondida em um pequeno anexo, da claustrofobia e o desespero de ser jovem e não poder andar na rua ou rir alto, e mostra o amadurecimento precoce da autora ao passar por tudo isso.

Terezín 1941 – 1944

CD de músicas compostas pelos presos dos campos de concentração de Terezín. Todos os compositores morreram em outros campos no final da guerra. Essa foi a última coisa que eles produziram.

 

Noite – Elie Wiesel

As experiências do autor nos campos de Auschwitz e Buchenwald. No livro, Wiesel conta de seu desgosto com a humanidade enquanto é obrigado a cuidar do pai, a cada dia mais doente, em um campo de concentração. É a primeira parte de uma trilogia, que continua com Alvorada e Dia. Publicado originalmente em Ídiche.

 

O Jardim dos Finzi-Contini – Giorgio Bassani

Por meio da relação entre os personagens principais, vários dos quais pertencem à família judia dos Finzi-Contini, o autor mostra a catástrofe que se aproxima e das leis raciais que restrigem a participação de judeus na sociedade italiana.

 

Fatelessness – Imre Kertesz

Essa novela conta a história de um menino de 14 anos que é mandado para Auschwitz. Ele foi comparado com O Julgamento, de Kafka, embora aqui a situação absurda tenha realmente acontecido. Também é parte de uma trilogia, que continua com Fiasco e Kaddish para uma criança não nascida, em que o autor fala da sua decisão de não ter filhos depois de ter passado por um campo de concentração.

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Ida Paweł Pawlikowski

Ida é uma jovem que está prestes a se tornar uma freira. Antes que isso aconteça, a madre superiora do convento pede que ela visite uma tia, a sua única parente viva. Lá Ida descobre que seus pais eram judeus, e vai com sua tia para a cidade onde eles viviam para que elas tentem descobrir mais informações sobre eles. O filme foi aclamado pela fotografia belíssima e pelo modo como mostra a atmosfera da época sem precisar dizer muito.

 

Austerlitz  -W. G. Sebald

O narrador de Sebald conhece um homem chamado Jacques Austerlitz em Antuérpia, e aos poucos começa a entender a sua história. Ele foi parte de um kindertransport, um esforço de salvar crianças judias dos países ameaçados por Hitler mandando-as para a Inglaterra para serem criadas lá. O narrador conta suas tentativas de descobrir sua história e faz uma reflexão sobre a memória, em um livro incrível.

 

Matadouro número cinco – Kurt Vonnegut

O romance conta a história de Billy Pilgram, que acredita já ter sido abduzido e ser capaz de viajar no tempo. Ele teria ficado solto no tempo depois de sua experiência como prisioneiro de guerra na Alemanha, durante a qual ele testemunhou o bombardeio de Dresden. Depois, ele foi dispensado do exército com sintomas de stress pós-traumático. A maioria dos críticos vê o romance como auto-ficção, e vêem nos elementos de ficção científica uma forma inteligente de retratar o stress pós traumático.

Uma curiosidade sobre esse livro é que ele parece ser o livro que mais inspira tatuagens nos Estados Unidos. Se um dia você vir alguém com uma tattoo que diz “so it goes”, é essa a origem.

 

The shop on the main streetJán Kadár e Elmar Klos

Esse filme tchecoslovaco fala de um homem que tem a oportunidade de tomar controle de uma loja graças ao processo de arianização, que proíbe judeus de serem proprietários de negócios. Ele descobre que a loja que foi designada para ele não dá lucro e a proprietária é uma velha judia que não entende o que está acontecendo, mas concorda em ficar lá e receber dinheiro da comunidade judaica, que teme que outro dono não seria tão leniente com a proprietária.

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Filho de SaulLászló Nemes

Esse filme conta a história de um judeu húngaro forçado a trabalhar como Sondekommando. Ele tem a função de retirar corpos das câmaras de gás e levá-los para o crematório e separar os seus pertences. Eles tinham acesso a condições um pouco melhores do que o resto dos prisioneiros, já que seu trabalho era extenuante, mas também eles eram exterminados para garantir que não houvesse provas do que aconteceu. O filme conta a luta dele para enterrar o corpo de um menino que pode ser seu filho.

 

Adeus, meninos – Louis Malle

O diretor Louis Malle fez esse filme baseado nas próprias experiências de infância. O filme conta a história de Julien, um estudante em um internato na França ocupada. Novos estudantes chegam na escola, e ele descobre que eles são meninos judeus sendo escondidos pelo abade que dirige a escola. Com o fim da guerra se aproximando, a situação se complica.

 

Korczak – Andrzej Wajda

Korczak era o diretor de um orfanato em Varsóvia. Reconhecido pelos seus esforços humanitários, ele recebeu várias ofertas de santuário. Mas ele escolheu não abandonar as crianças de quem cuidava. É um dos filmes mais amados de Wajda.

 

In darkness – Agnieszka Holland

Esse filme conta a história de Leopold Socha, um homem que ajudou um grupo de judeus e a fugir da exterminação do gueto de Lvov, atualmente na Ucrânia. Ele os mantém nos esgotos da cidade, primeiro exigindo dinheiro, mas continuando mesmo muito depois que eles gastam todo o dinheiro.

 

Noite e neblina – Alan Resnais

Esse curta documentário fala sobre as vidas dos prisioneiros em campos de concentração enquanto mostra as passagens abandonadas de Auschwitz e Majdanek. Ele toca em temas polêmicos como tortura, experimentos médicos e prostituição forçada. Ele foi feito para manter viva a memória dos horrores da guerra no aniversário de dez anos da liberação dos campos.

 

ShoahClaude Lanzmann

Shoah, a catástrofe, é a palavra judaica para o holocausto. É considerado um dos melhores documentários de todos os tempos, com mais de dez horas de duração. Ele é composto principalmente de entrevistas e visitas a campos de concentração.

 

Memory of the Camps – Vários diretores

Em 1945, os governos dos EUA e do Reino Unido gravaram várias imagens nos campos de concentração recém-liberados. Vários diretores se envolveram para editar o filme vários anos depois, inclusive Alfred Hitchcock. Uma das preocupações dele foi de mostrar o quanto os campos eram próximos a cidades alemãs e que o alemão normal deve ter sabido sobre as câmaras de gás.

Clique na imagem para ler mais sobre os lugares que eu visitei que nos lembram a história da Segunda Guerra

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7 comentários

  1. Fernando

    Adorei a idéia de escrever um post com idéias de como aprender mais antes de visitar um campo de concentração. A gente já aprende muito neles, mas quanto mais soubermos antes, mais aproveitamos essa experiência transformadora.

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